From Adversity We Live: Archiving and Digital Media in the Global South

Resumo da apresentação realizada por Giselle Beiguelman, Ana G. Magalhães e Ana Avelar no 11o Media Art History Conference. Manizales, maio 2025.

BEIGUELMAN, Giselle; MAGALHÃES, Ana; AVELAR, Ana C. ‘From Adversity We Live’: Archiving and Digital Media in the Global South. In: 11TH INTERNATIONAL CONFERENCE ON THE HISTORIES OF MEDIA ART, SCIENCE AND TECHNOLOGY. CATÁLOGO DE LA 11TH INTERNATIONAL CONFERENCE ON THE HISTORIES OF MEDIA ART, SCIENCE AND TECHNOLOGY. Manizales: Festival Internacional de la Imagen, 5 maio 2025. p. 147-148.

From Adversity We Live: Archiving and Digital Media in the Global South

Este painel reúne três estudos de caso dedicados a documentar e preservar coleções no Sul Global, a partir de experiências brasileiras que articulam arte digital, sustentabilidade e métodos de machine learning. A discussão se apoia nos conceitos de documentação social e de objetos enredados (entangled objects), buscando evidenciar como acervos e obras não são entidades estáveis, mas conjuntos de relações materiais, técnicas e institucionais — muitas vezes atravessados por lacunas, precariedades e disputas sobre memória e acesso. Os casos apresentados foram desenvolvidos no âmbito dos grupos de pesquisa Acervos Digitais e Pesquisa (FAPESP) e Academia de Curadoria (CNPq).

O ponto de partida é um diagnóstico estrutural: no Brasil, a oferta pública de coleções digitais na internet ainda é limitada e desigual. Segundo um levantamento sobre o uso de TICs em equipamentos culturais (2022), 64% dos arquivos disponibilizam coleções digitais online, mas esse percentual cai para 35% entre museus; em bibliotecas, chega a apenas 9%, e em sítios patrimoniais tombados, 19%. A assimetria se torna ainda mais visível quando comparamos escala e presença online: a base Brasiliana Museus reúne cerca de 20.000 itens; o Museu do Ipiranga, cerca de 33.500; enquanto instituições como o Smithsonian oferecem 18 milhões de itens e a Europeana, 60 milhões. No horizonte mais amplo da circulação de imagens, plataformas privadas como o Instagram operam em outra ordem de magnitude, com 50 bilhões de imagens arquivadas. Esses números expõem tanto um déficit de infraestrutura e equipes quanto a dependência crescente de ambientes corporativos para acesso e visibilidade do patrimônio imagético.

Nesse contexto, o painel se organiza em três eixos complementares.

Eixos de reflexão

O primeiro, Cannibalizing Digital Archives: The Entangled Object, aborda a ideia de “canibalizar” arquivos digitais como estratégia crítica para lidar com a instabilidade dos suportes, com as camadas de mediação algorítmica e com as disputas em torno da descrição e da circulação de imagens. A noção de objeto enredado funciona aqui como chave para pensar o arquivo não como depósito neutro, mas como ecossistema de relações e, portanto, como campo de intervenção: política, técnica e estética. Para tanto apresenta dados sobre as assimetrias entre digitalizações de acervos e problematiza o projeto realizado por Acervos Digitais e Pesquisa com o projeto Arquigrafia. Entre outras questões, enfatizamos, nesse bloco a metodologia de apropriação de dados disponíveis para fabular arquivos que não existem.

O segundo eixo, Digitization, 3D Printing and Conservation: a case study from the Collections of MAC USP, discute a conservação e a mediação por meio de experimentações com cópias expositivas em impressão 3D, tomando como caso a obra futurista Unique Forms of Continuity in Space, de Umberto Boccioni, a partir do gesso original pertencente ao MAC USP. O estudo articula práticas de Media Art Histories, procedimentos contemporâneos de preservação e referências como o programa ReaCH V&A (2017), destacando como a digitalização e a reprodução técnica podem operar não apenas como “substituição” do original, mas como ferramenta para pesquisa material, acessibilidade e reinterpretação pública das coleções.

O terceiro eixo, Curating Online: The Case of Artmediamuseum, concentra-se em curadoria para ambientes digitais, entendida não como mera transposição da exposição física para a web, mas como construção de narrativas e estratégias curatoriais adequadas às condições próprias do online. O argumento central é que a expansão das redes sociais e das tecnologias digitais transformou o campo curatorial: hoje, curadores podem identificar artistas, tendências e debates sem depender exclusivamente de agentes institucionais — mas esse deslocamento também recoloca problemas de acesso, infraestrutura e desigualdade tecnológica. O projeto ARTEMÍDIAMUSEU, concebido pela Academia de Curadoria, surge como resposta à falta de estrutura online para exposições, ações curatorial-pedagógicas e comunicação com públicos, com o objetivo de promover e discutir artes digitais e, ao mesmo tempo, enfrentar lacunas históricas nas coleções museológicas brasileiras nesse domínio.

As exposições citadas funcionam como exemplos de formatos e questões: “Unavailable file” (Museu Nacional da República) propõe um repertório de artistas e trabalhos ligados à cultura digital; “Attached file” explicita a demanda por estruturas de preservação e apresentação; “Aceitar e continuar” enfatiza que o projeto busca criar conexões conceituais e explorar formatos inovadores, levantando reflexões sobre acessibilidade na internet e sobre o impacto das desigualdades tecnológicas nas práticas curatoriais online. Como desdobramento mais recente, Um Banhado Digital (A digital wetland), curado para o Museu Leopoldo Gotuzzo (UFPel – MALG), responde às enchentes em Pelotas ao imaginar os banhados como símbolos de resiliência, biodiversidade e renovação ecológica, articulando crítica ambiental, tecnologia e curadoria digital — o banhado como ecossistema físico e como metáfora para pensar clima, coexistência e o próprio fazer curatorial em rede.

O conjunto dos estudos de caso converge, assim, para uma mesma hipótese: no Sul Global, falar de arquivo e de preservação — especialmente no campo da arte digital — implica problematizar simultaneamente infraestrutura, descrição, acesso público e mediações técnicas (incluindo IA), sem perder de vista as camadas sociais e políticas que atravessam tanto a materialidade das obras quanto as condições de sua legibilidade online.

Ao final, o painel apresenta os projetos relacionados: Acervos Digitais e Pesquisa, o Acervo MAC-USP e o ARTEMÍDIAMUSEU, além das referências bibliográficas: ARTEMÍDIAMUSEU: a collection of digital arts for a Brazilian museum (Avelar et al., 2024), Boundary Images (Beiguelman et al., 2023) e Boccioni in Brazil (Magalhães & McKever, 2022). A participação no XI Media Art History foi viabilizada com apoio da FAPESP e do CNPq.