Na Rua Tutóia, em São Paulo, funciona hoje uma delegacia de polícia em um edifício integrado ao cotidiano da cidade. Durante a ditadura militar brasileira, esse mesmo espaço abrigou o DOI-Codi de São Paulo, um dos principais órgãos de repressão política do país. Ali foram conduzidas detenções ilegais, interrogatórios sistemáticos, práticas de tortura e outras graves violações de direitos humanos que marcaram profundamente a história recente do Brasil.
Apesar de sua centralidade no aparato repressivo, o DOI-Codi foi estruturado para operar de forma opaca, deixando poucos registros diretos de suas atividades. Essa ausência não é casual, mas parte de uma estratégia de ocultamento que contribuiu para a construção de narrativas que minimizam a violência de Estado. Reconhecido como patrimônio cultural, o conjunto arquitetônico permanece, ainda hoje, sem um museu memorial físico que enfrente diretamente essa história no próprio local onde ela ocorreu.
O Memorial Virtual DOI-Codi surge nesse contexto como uma resposta política, histórica e educativa. Desenvolvido pelo Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi, ativo desde 2018, o projeto reúne pesquisas documentais, arqueológicas e historiográficas, testemunhos, imagens, mapas e registros visuais que permitem compreender tanto a materialidade do espaço quanto os mecanismos de repressão ali operados. O ambiente digital torna-se, assim, uma forma de garantir acesso público ao conhecimento produzido e de sustentar a mobilização social em torno do direito à memória.
A plataforma oferece visitas virtuais aos ambientes do antigo DOI-Codi, acesso a informações sobre objetos arqueológicos encontrados no local e textos que analisam a trajetória do edifício, suas transformações e seus usos. Fotografias aéreas, plantas e outros vestígios ajudam a reconstruir uma cronologia espacial de um lugar pensado para não deixar rastros. Ao articular esses fragmentos, o memorial virtual contribui para ampliar o campo documental sobre a ditadura e para tensionar versões oficiais que ainda circulam no presente.
Mais do que uma alternativa provisória, o Memorial Virtual DOI-Codi afirma o papel do digital como instrumento ativo de produção de memória, pesquisa e educação em direitos humanos. Ao tornar visíveis histórias silenciadas e evidenciar as marcas materiais da repressão, a plataforma reforça a importância da memória como fundamento da democracia e como condição para que violências semelhantes não voltem a ocorrer.
Coordenado pela historiadora Deborah Neves, da Unifesp, o Memorial Virtual entrou no ar essa semana e pode ser acessado aqui. O diretor de Jornalismo da ABI, Moacyr de Oliveira Filho, que esteve preso ali em maio de 1972 e integra do GT Memorial DOI-Codi, desde 2021, é um dos colaboradores do Memorial Virtual. Esse é o primeiro museu virtual brasileiro sobre a memória da ditadura. E o Ibram não reconhece museus virtuais como museus.
Visite https://memorialdoicodi.unifesp.br