Para o filósofo espanhol Paul B. Preciado, o corpo não é apenas uma entidade biológica, mas um texto socialmente produzido: um arquivo orgânico onde se inscreve a história da humanidade enquanto história da produção e reprodução sexual. Nesse corpo-arquivo, certos códigos são naturalizados e legitimados, outros permanecem apenas em forma elíptica, quase invisíveis, enquanto muitos são sistematicamente apagados, silenciados ou riscados.
Desse ponto de vista, o Museo de Arte Transfemenino (MAT), na Cidade do México, pode ser compreendido como um corpo-arquivo vivo. Fundado em 2022, no contexto fronteiriço de Ciudad Juárez, o projeto nasceu do encontro entre a artista Rojo Génesis e a artista e trabalhadora sexual Deborah Álvarez. A partir de suas conversas, emergiu a necessidade de questionar o lugar das mulheres trans na arte e na cultura, não apenas como objetos de representação, mas como criadoras e produtoras de sentido.
O MAT baseia-se na pesquisa de Rojo Génesis sobre a tensão histórica entre museus, territórios e mulheres trans, bem como as genealogias de apropriação na América Latina. Dessa reflexão emergiu, em 2023, a exposição Plasticidades Encarnadas: Traços Genealógicos da Produção Artística de Mulheres Trans no México, com curadoria de Rojo Génesis. A mostra reuniu trabalhos de quatorze artistas com a intenção de ultrapassar tanto a lógica narrativa do arquivo tradicional quanto a perspectiva antropológica que tende a exotizar as existências trans.
Nesse sentido, as artistas perceberam que, apesar da crescente abertura de espaços voltados à arte trans, persiste uma tendência preocupante de apropriação das narrativas e criações de pessoas trans. Diante desse cenário, decidiram adotar estratégias para proteger e preservar suas vozes, experiências e formas de expressão.
Para além disso, o MAT questiona a fetichização da feminilidade trans na arte e sua exploração no mercado cultural, propondo uma abordagem crítica à privatização de arquivos e à estetização do transfeminicídio. Sua existência marca uma transição da perseguição política para a construção de um espaço de resistência e legitimação artística.
CONHEÇA
PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Tradução: Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: N-1 Edições, 2014.
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https://artishockrevista.com/2025/02/26/abre-en-mexico-el-museo-de-arte-transfemenino