O Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, Muquifu, nasceu da ação coletiva dos moradores do Aglomerado Santa Lúcia, conhecido como Morro do Papagaio, e desde 2012 funciona como um espaço de memória construído publicamente. A coleção é formada por objetos doados e emprestados pelos moradores, por registros orais, fotografias, testemunhos e peças que condensam histórias de vida; o valor museal reside nas narrativas e nas pessoas que as trazem. A entrada pela Igreja das Santas Pretas revela a natureza sincrética do Muquifu, onde religiosidade, práticas de cuidado, saberes populares e produção artística se articulam. Os murais pintados por artistas convidados e por moradores reposicionam narrativas sacras para incluir as perspectivas negras locais e tornar visível a presença histórica da comunidade no território. O Muquifu organiza oficinas, rodas de conversa, visitas mediadas, ações educativas com escolas e atividades performativas que mantêm o acervo em circulação e implicam o público nos processos de curadoria e preservação. A prática do museu alia memória incorporada e memória documental: objetos cotidianos, vestes, cartazes, certificados e registros de vidas compõem núcleos expositivos que tratam de território quilombola, religiosidade, ofícios, objetos biográficos e práticas estéticas.
Entre os itens que ilustram esses núcleos estão as bonecas confeccionadas por Dona Mariana, que representam mulheres do Chá da Dona Jovem e simbolizam formas de sociabilidade femininas que resistiram à venda do espaço nos anos 1990, e o altar conhecido como Reino de Dona Marta, onde convivem santos pretos e objetos de congado, materializando o sincretismo como tática de cuidado e resistência. O acervo resulta de uma política de aquisição e documentação que inclui compras, doações e achados cotidianos, e é também fruto de um trabalho de pesquisa que já teve repercussão em mostras e simpósios, como a participação do Acervo da Laje em bienais e ações de visibilidade. O Muquifu responde a processos contemporâneos de gentrificação e reassentamento, atuando tanto para preservar bens materiais quanto para garantir a permanência das memórias e dos modos de vida que sustentam a comunidade.
O projeto NegriCidade integra-se a esse trabalho como um desdobramento das práticas do Muquifu e das mobilizações em torno do direito à memória. Formado por pesquisadores, lideranças locais e por padre Mauro Luiz da Silva, o coletivo dedica-se a recuperar e tornar públicas as histórias da população negra que foi soterrada pela construção de Belo Horizonte, com especial atenção ao Largo do Rosário, lugar de devoção e enterro da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. A partir de pesquisa historiográfica e arqueológica, caminhadas urbanas, ocupações performáticas e ações de mediação, o NegriCidade reinscreve no presente territórios apagados pelo urbanismo higienista e impulsiona políticas de reconhecimento. A atuação do coletivo foi fundamental para o registro do Território do Largo do Rosário como patrimônio cultural imaterial e para a inauguração da placa indicativa do Largo, ações que reafirmam a importância de reparar apagamentos e de afirmar a ancestralidade e a agência política das comunidades negras.
O Muquifu aposta em metodologias museológicas participativas que transformam visitantes em interlocutores e coproductores de sentidos. As exposições e intervencões não apenas exibem objetos, elas convocam falas, rituais e oficinas que ativam memórias, fortalecem laços comunitários e criam espaços de aprendizado coletivo. Em parceria com universidades, coletivos e projetos de memória, o Muquifu desenvolve pesquisas, publicações e percursos que tornam acessíveis narrativas pouco contadas. Ao articular memória local, ativismo e práticas curatoriais colaborativas, o Muquifu reafirma que preservar o passado é também uma ação política para garantir direitos no presente e imaginar futuros de pertencimento e dignidade para os moradores do Morro do Papagaio.