SEMINÁRIO ANTAGONISTAS: RESISTÊNCIAS ALGORÍTMICAS

Por Cássia Hosni

Com relatoria de Rian Souza, Leno Veras e Felipe Mamone

Realizado nos dias 9 e 10 de fevereiro de 2026, o Seminário foi organizado pela equipe do Projeto Temático Fapesp Acervos Digitais e Pesquisa, em colaboração com o projeto CNPq Inteligência Colaborativa em Coleções de Museus.

O evento aconteceu em diálogo com a exposição Antagonistas: Resistências Algorítmicas, no MAC-USP e contou com uma visita mediada e três mesas-redondas com convidados nacionais e internacionais, para debater sobre estratégias informacionais diante os sistemas hegemônicos. 

Antes do Seminário foram realizados encontros preparatórios em que a equipe organizadora buscou formas de diálogo da exposição com a produção de cada um dos convidados. A partir das perguntas disparadoras: Como vocês definem “antagonismos algorítmicos”? e “Como situam seu trabalho/prática como uma forma de resistência algorítmica?, os sete convidados prepararam suas apresentações públicas.

O Seminário contou com mais de 160 inscritos, e teve a presença de estudantes, pesquisadores e artistas, que tiveram ampla participação nas conversas realizadas no MAC USP, na FAU USP campus Maranhão e na FAU USP, Butantã.

Leia os destaques das mesas abaixo e clique nos links dos convidados para acessar suas apresentações

Conheça os palestrantes

Exposição Antagonistas: Resistências Algorítmicas, MAC USP

A primeira atividade do Seminário foi a visita mediada à exposição, no dia 9/2, às 10h, com os curadores Heloisa Espada e Gabriel Pereira.

Em cartaz no MAC USP de 29 de novembro de 2025 a 22 de fevereiro de 2026, a exposição partiu do acervo do MAC USP para contextualizar a produção de artistas, ativistas e cientistas que propuseram, desde os anos 1960, estratégias de resistência às tecnologias informacionais.

Com obras de 26 artistas, a mostra trouxe as produções de diferentes períodos, desde os trabalhos de pioneiros de Waldemar e Analívia Cordeiro, Giselle Beiguelman, Gilbertto Prado, Eduardo Kac, até as obras contemporâneas de Irineu Nje’a Terena, Glicéria Tupinambá, Gu da Cei, Leandra Espírito Santo, entre outros.

Os curadores compreendem o algoritmo como um conjunto de instruções ou regras que orientam sistemas informacionais, desde os saberes ligados à produção de cerâmica até o desenvolvimento de aplicativos para celulares.

Para eles, as 30 obras presentes na exposição, apresentam questionamentos às ideias de alta e baixa tecnologia, da eficiência e do erro, do arquivamento e do apagamento.

Em um tempo em que Inteligência Artificial domina as narrativas atuais, a exposição enfatiza o poder da arte e da tecnologia em se perpetuar por diferentes vias, pensando criativamente o seu uso e infiltrações nas redes de comunicação.

“A exposição é muito voltada para estimular o visitante a pensar o que fazer com a tecnologia. Por um lado, a exposição é muito crítica em relação às tecnologias e aos seus usos, por outro, não é apocalíptica. A ideia é incentivar a pensar de maneira criativa sobre como usar essas ferramentas que estão no nosso dia a dia”
Heloisa Espada

1a. Mesa-redonda: Silvana Bahia, Dalida Benfield, Christopher Bratton. Mediação de Ana Roman

O primeiro talk do seminário “Antagonistas: Resistências Algorítmicas” propôs uma reflexão crítica sobre a hegemonia dos sistemas automatizados.

Sob a mediação de Ana Roman, o debate partiu de questionamentos fundamentais sobre a autoria e a simetria de poder na construção das infraestruturas tecnológicas. O diálogo buscou dar visibilidade aos “campos de força” e à opacidade algorítmica, discutindo como os processos de classificação automatizada operam dinâmicas de exclusão social.

“Quais são as histórias que não são contadas?”
Silvana Bahia

A contribuição de Silvana Bahia centrou-se na intersecção entre tecnologia, raça e gênero. Ao analisar a ausência de mulheres negras nos espaços de desenvolvimento tecnológico, a palestrante destacou a trajetória do projeto PretaLab, fundado em 2017 como uma resposta política à predominância masculina e branca no setor.

Silvana estabeleceu uma distinção conceitual importante entre o “hackeamento” e o “antagonismo”: o primeiro pressupõe o domínio técnico do código, enquanto o segundo exige uma postura de indignação e recusa à passividade do usuário (“apenas apertar botões”). Suas provocações abordaram a necessidade de recuperar “códigos negros” de comunicação e acervos digitais para combater a pasteurização das identidades.

A palestrante defendeu que a arte e a tecnologia devem servir como ferramentas de “reencantamento”, permitindo que populações historicamente marginalizadas recuperem a capacidade de sonhar e imaginar futuros que não lhes foram originalmente destinados.

“Existe uma história global de algoritmos ao longo do tempo e do espaço. Lineares e não lineares, contínuos e descontínuos, binários e não binários, que prenunciam passados,
presentes e futuros alternativos.”

Dalida Benfield

Dalida Benfield direcionou o debate para a recuperação de dados e imagens como estratégia de resistência. Sua fala priorizou a busca por questões de não-linearidade e a exploração de cosmologias que transcendam a lógica binária da computação tradicional.

Para Benfield, o antagonismo algorítmico reside na capacidade de imaginar futuros alternativos a partir da criação técnica e artística, rompendo com os modelos impostos por quem detém o poder financeiro. Sua abordagem enfatizou a “pedagogia da tecnologia” como uma prática de educação não-linear necessária para a emancipação subjetiva.

“O que se chama de aprendizagem é, na verdade, classificação.”
Christopher Bratton

Em participação remota, Christopher Bratton abordou o conceito de “caixas pretas” (black boxes) e a existência de “arquivos menores”. O pesquisador argumentou que, sob o regime neoliberal, as tecnologias funcionam como ferramentas de controle de significados.

Bratton propôs o desenvolvimento de “economias poéticas” e a utilização de ferramentas (tanto analógicas quanto digitais) que favoreçam o convívio e a imaginação coletiva. Em sua visão, política e tecnologia são indissociáveis, e sua convergência deve ser orientada para a criação de novos horizontes utópicos.

O diálogo entre as convidadas e o público revelou preocupações urgentes sobre a materialidade da tecnologia. Questionou-se a neutralidade técnica e os impactos ambientais da crise climática inerentes ao desenvolvimento tecnológico desenfreado. Houve uma crítica contundente à ideia de que a eficiência algorítmica (como o uso de ferramentas de IA generativa) equivale à qualidade de vida.

O encerramento reforçou que o que está em disputa são as possibilidades de futuro e a transparência das Big Techs. Silvana Bahia concluiu com a afirmação de que a verdadeira renovação tecnológica e cultural não advém de um isolado momento “Eureka” de descoberta, mas sim do “Remix”, a capacidade de rearranjar, coletivamente, os códigos e memórias para recusar o cancelamento do futuro e promover uma renovação efetiva das estruturas sociais.

2a. Mesa-redonda: Doreen Ríos e Larissa Macedo. Mediação de Cássia Hosni

O encontro entre as autoras partiu da convergência entre suas atuações teóricas e metodológicas no âmbito da produção acadêmica e política, integrada ao panorama contemporâneo da produção crítica em arte e tecnologia no cenário latino-americano.

Com foco na interação entre epistemes originárias e diaspóricas, o debate amplia a conjuntura dos trabalhos realizados por ambas em territórios e com comunidades de matrizes culturais meso-americanas afro-brasileira.

Larissa e Doreen enfatizaram a perspectiva das contra-técnicas, como modos de ativação de saberes e fazeres ancestrais e anti-coloniais, tendo as redes e as mídias como espacialidades e temporalidades a serem ocupadas e ativadas por meio de estratégias análogas às praxis das gambiarras e “chatarras”.

“É preciso pensar as práticas artísticas das artes e tecnologias para além de sua função original. A contraprodução não é encher o vazio, não é buscar o passado colonial, mas sua reescritura”
Doreen Ríos

Doreen Ríos, curadora e pesquisadora mexicana, investiga a contraprodução tecnológica na arte contemporânea, nas mídias táticas e nas novas materialidades, de modo que sua apresentação partiu do conceito de Contraprodução Tecnológica.

Ela localiza esse conceito entre três campos fundamentais para uma estrutura crítica do antagonismo algorítmico: objetos técnicos, crítica infra-estrutural, e prática estética radical – que se desdobram sequencialmente ao longo de um processo de remediação, desobediência e expropriação.

A socialização dos objetos técnicos, para além dos seus limites utilitários, seria, portanto, a forma de remediar a ação prevista pelas corporações tecnológicas para os usos dos produtos sócio-técnicos. A invenção vernacular é o meio em que os utilizadores, em condições de restrição, reconfiguram objetos técnicos para satisfazer necessidades não previstas pelos seus designers.

Essa reutilização adaptativa, que desafia fundamentalmente a autoridade inerente aos objetos técnicos é uma das questões que Doreen traz do designer e artista cubano Ernesto Oroza, que destaca a força da resistência das atualizações e remontangens em novas redes sociotécnicas.

“Ao visitar a exposição Antagonistas, entendi que para aqueles artistas ser antagonista é uma opção. Eu sou por condição. Não podemos esquecer a pergunta: Quem são os protagonistas? “
Larissa Macedo

A artista e professora brasileira Larissa Macêdo abordou em sua exposição aspectos presentes em sua pesquisa arte-ativista, na qual aborda questões relacionadas à IA, às redes sociais e às práticas artísticas e curatoriais sob uma perspectiva negra e contracolonial brasileira, que situa estético-politicamente sob a égide do título “encruzilhadas: artes, tecnologias ancestrais e resistências algorítmicas”, a partir do qual desenvolve um conjuntura de conexão entre as teorias acadêmicas e as práticas sociológicas que alicerçam pontes entre saberes ancestrais e tecnologias contemporâneas.

Buscando tensionar as limitações impostas pela estrutura colonial dos contexto universitário latino-americano, sobretudo no que tange o sistema do ensino superior brasileiro, a pesquisadora parte do questionamento de quais perspectivas temos para pensar as tecnologias fora da lógica hegemônica, buscando identificar possibilidades de como nos apropriar de sistemas, imagens e dados para criar estratégias de resistência?

Larissa propõe “riscar essa encruzilhada”, expandindo a análise crítica das práticas artísticas que desafiam a captura e a hierarquização algorítmica nas redes sociais, abrindo um caminho que dialoga com uma perspectiva afrodiaspórica brasileira, com o operador conceitual das encruzilhadas (desenvolvido pela poeta e professora Leda Maria Martins), e pela ação contracolonial fundamentada nos saberes quilombolas (arregimentado por mestre Nêgo Bispo); referências que nos possibilitam repensar e ressignificar os sistemas tecnológicos hegemônicos a partir de tecnologias ancestrais.

Esta segunda mesa reuniu pensadoras essenciais para o contexto de virada epistemológica que se dá no panorama acadêmico do século XXI, destacando a atualização dos referenciais teóricos e procedimentos metodológicos que começam a ser abordados desde perspectivas mais centradas na produção crítica local, com vista à intelectualidade originária e contemporânea latino-americana.

Assistida por um auditório repleto de estudantes, pesquisadores e professores, que se reuniram FAU-USP, Doreen e Larissa mobilizaram questionamentos do público com ênfase nessa chave de compreensão, buscando aprofundamentos nas origens, e destinos, dos conceitos apresentados.

3a. Mesa-redonda: Daniel Hora e Vladan Joler. Mediação de Renata Perim

O terceiro e último talk do seminário tratou de táticas de resistência e de compreensão de tecnologias contemporâneas.

As discussões buscaram articular certas práticas estéticas de intervenção propostas pela Arte Hacker com a necessidade de mapear as materialidades e as relações de poder que subjazem essas infraestruturas.

O foco recaiu, portanto, sobre a tensão entre a complexidade e a hegemonia dos sistemas algorítmicos e a agência tática capaz de produzir antagonismo, diferença ou mesmo entendimento de suas engrenagens.

“Haquear é produzir diferenças”
Daniel Hora

Em diálogo com a exposição Antagonistas: Resistências Algorítmicas, a fala de Daniel Hora apresentou obras que Daniel Hora define como Arte Hacker que antagonizam com sistemas sociais variados. Este conjunto de obras é caracterizado pelo palestrante não a partir da utilização de determinados dispositivos, mas como um desdobramento histórico de poéticas como o happening e a performance que se orientaram ao atravessamento de sistemas comunicacionais e computacionais.

Partindo da premissa de que “hackear é produzir diferença”, a análise de Daniel Hora mobilizou ainda quatro conceitos que, a depender do artista e da obra, serviram como poderosos vetores de crítica aos seus panoramas sociotécnicos: a utilidade, a propriedade, a obsolescência e a localização das tecnologias em questão.

Mais do que uma definição teórica, porém, o palestrante apresentou um cenário amplo e concreto de indivíduos ou coletivos que, em arena nacional ou internacional, se posicionaram contra determinados esquemas técnicos, abrangendo desde os netstrikes de Tommaso Tozzi, as inserções midiáticas de Antonio Manuel ou mesmo as intervenções urbanas do Coletivo Gambiologia.

“A IA é a tecnologia mais problemática porque não é um
mundo de regras, mas de probabilidade estatística.”

Vladan Joler

A fala de Vladan Joler desloca a questão do antagonismo para a área do inteligível: como é possível compreender ou mesmo visualizar a megaestrutura formada pelo imbricamento dos sistemas contemporâneos de informação? Como podemos conceber o Facebook, o Instagram, ou mesmo as inteligências artificiais e toda a rede global de comunicação, particularmente em um período de intensa opacidade tecnológica?

Ao longo da sua fala, Vladar Joler detalhou como seus procedimentos de pesquisa deslocaram-se paulatinamente para o campo forense e cartográfico, ou seja, para questões de rastreamento e de apresentação, de localização e de visualização.

Para Joler, os dispositivos móveis são compreendidos primariamente como interfaces de acesso a uma infraestrutura digital planetária, onde ações aparentemente simples como consultar a temperatura local mobilizam vastas cadeias de produção material e extração de dados.

Diante da enormidade dessas infraestruturas e, em particular, de seus mecanismos de poder e de trabalho, a cartografia emergiu como uma principal ferramenta de visualização dentro de obras como Anatomy of IA.

Os mapas, neste sentido, funcionam como dispositivos narrativos não-lineares capazes de traduzir a complexidade hegemônica e investigar o ciclo material dos aparelhos, questionando a real posição dos indivíduos no interior dessa fábrica algorítmica de escala global.