Cartas indígenas ao Brasil

Bruna Keese

“Cartas Indígenas ao Brasil” é um amplo projeto de curadoria da Universidade Federal da Bahia que contou com a colaboração de pesquisadores indígenas e não indígenas para  criação e publicização do primeiro arquivo digital de correspondências escritas por indígenas e endereçadas ao país. 

A iniciativa abrange três períodos fundamentais da história literária e política brasileira: 1630-1680 (antes da consolidação da ideia de Brasil), 1801-1910 (formação da nação) e 1970-2025 (Brasil contemporâneo). O projeto é um desdobramento de uma pesquisa anterior que mapeou centenas de cartas escritas em língua portuguesa ou bilíngues, circulando em redes sociais e sites de ONGs entre 2000 e 2015. 

Ao eleger o “Brasil” como destinatário, essas correspondências funcionam como ferramentas oficiais de conversação com o Estado, permitindo que lideranças como Sônia Guajajara, Raoni Metuktire e Davi Kopenawa narrem uma outra versão da história nacional através de suas próprias biografias e lutas.

Um dos pilares teóricos centrais do trabalho é a discussão sobre a noção de “povo-autor”, fundamentada na observação de mais de 300 correspondências com assinaturas coletivas. Esse conceito desafia as definições eurocêntricas de autoria individual, defendendo que o grupo étnico assume a autoridade do texto e utiliza a linguagem do colonizador para biografar sua resistência e compromisso ético com a terra. 

Para compor esse arquivo histórico, a pesquisa também se dedica a selecionar e traduzir cartas do período colonial, como as de Antonio Paraopeba e Felipe Camarão, localizadas nos Arquivos da Real Biblioteca da Holanda, em Haia.

Os resultados do projeto estão consolidados em uma plataforma digital de livre acesso, desenhada para servir como um memorial oral e imagético. O site oferece funcionalidades de busca avançada por remetente, destinatário, ano e assunto, além de abrigar um repositório de conteúdo multimídia. Na seção de “Publicações”, os usuários encontram ainda artigos acadêmicos, ensaios, vídeos, entrevistas e livros fundamentais, como “Cartas para o Bem Viver”. 

Em última análise, o projeto busca inserir a autoria indígena nos estudos literários e fornecer material estético-didático inédito para escolas públicas, museus e pesquisadores em todo o mundo. Além disso, as cartas nos revelam como os povos indígenas deixam de ser apenas o “objeto” romantizado da literatura colonial para se tornarem os sujeitos e autores da sua própria história, utilizando a escrita como um poderoso ato de resistência e afirmação política.

O projeto foi coordenado pela Profa. Dra. Suzane Lima Costa no Instituto de Letras da UFBA e financiado pelo CNPq.

Conheça

https://cartasindigenasaobrasil.com.br/.