Por Felipe Mamone
Na maioria das vezes, conhecemos os territórios a partir de suportes visuais como mapas e fotografias. O projeto Cities and Memory ataca de frente esse pressuposto ao propor uma cartografia não de visões, mas de sons. O site se constitui como uma paisagem acústica global, investigando como o som atua como vetor de memória, identidade e transformação sociotécnica.
A arquitetura da plataforma organiza-se a partir de um mapa interativo que perfila um acervo colaborativo de milhares de gravações em mais de 140 países. O aspecto mais potente da iniciativa, no entanto, reside em sua proposta (re)inventiva: para cada gravação de um ponto do globo, é necessário fornecer uma reinterpretação artística desse mesmo arquivo.
Essa abordagem dupla recusa a neutralidade ingênua do registro documental. Ao confrontar o dado acústico primário com a sua fabulação criativa, o Cities and Memory explicita que a escuta é sempre um ato de mediação e construção de sentido. Além disso, desafios semestrais do projeto propõem a escuta, gravação e reinvenção de determinados temas como ecologias naturais, ruídos industriais e protestos políticos, constituindo um interessante espaço de reflexão e discussão sobre arqueologia sonora.
Mais do que um repositório de áudio, a iniciativa consolida-se como um recurso para a pesquisa em arte, tecnologia e ecologia urbana. Ao democratizar o acesso às gravações sob licenças abertas, o projeto reforça o valor do patrimônio intangível e convida o ouvinte a desenvolver uma escuta ativa sobre as mutações do espaço construído.
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